Despatologiza

Desde ontem, tenho debatido em um post sobre a “despatologização da infância”. Um grupo está se manifestando contra a portaria do MS que determina que pediatras utilizem um screening para detectar sinais de atraso no desenvolvimento em bebês (odeio a expressão “risco psíquico”). Nós, que temos filhos autistas e sabemos a importância da intervenção precoce, achamos a iniciativa do MS incrível. Este grupo alega várias coisas para ser “do contra”: desde “os médicos não sabem aplicar o screening” até “não vai ter como tratar as crianças”. Muitos argumentos diferentes quando o motivo principal é o próprio nome do movimento: despatologização da infância. Ou seja: médicos malvados, parem de dar diagnósticos para as crianças! Queridos, para começar, se vamos falar de problema, o do Brasil não é excesso de criança diagnosticada por engano. Mas milhares de crianças com atrasos no desenvolvimento não detectados, principalmente por alguns pediatras, que não recebem formação adequada na área e seguem com o discurso do “tempo da criança”. São crianças recebendo rótulos de “preguiçosa, avoada, agressiva” na escola, como se tudo fosse uma questão de personalidade ou educação. São mães ouvindo que “estão catando pelo em ovo”, “estão querendo enfiar doença na criança”, ou que não estimulam devidamente o filho. É o diagnóstico de autismo que vem tarde, e tira da criança a chance de ter a intervenção precoce e, portanto, ter um prognóstico melhor.
Para começar, o protocolo não pretende “diagnosticar bebês”, mas detectar sinais de atraso no desenvolvimento. Estes podem ser tratados desde cedo, independente de um diagnóstico vir ou não mais tarde. “Ah, mas o SUS não vai ter como tratar tanta criança”. Uma vez detectado o risco, a mãe vai poder ter auxílio de outras mães, de ongs, da internet. É a sociedade cumprindo o papel do Estado enquanto este não dá um jeito. “Ah, mas isso vai estigmatizar os bebês, podem sofrer preconceito”. Agora, sim, chegamos ao ponto: despatologizar a infância é, simplesmente, parar de diagnosticar. Se a criança é autista, você pode chamar de “criança azul”, “criança goiaba”, o que quiser, mas o autismo vai continuar ali. Não adianta negar. Não é psicológico. Não é passageiro. Diagnóstico não é rótulo. É uma bússola para que os pais saibam o que devem fazer, como a criança aprende melhor, como ela entende o mundo melhor. Se você acha que diagnóstico estigmatiza, rotula, é ruim, então sinto te dizer, mas você é capacitista. Autistas precisam, sim, bater no peito e gritar pro mundo que são autistas. Precisam ter orgulho de serem quem são, porque ser neurodivergente em um mundo tão cheio de preconceito e busca pela normalidade é, praticamente, um ato de rebeldia.

Texto publicado por Lagarta Vira Pupa – Na íntegra: https://goo.gl/6j8mbm